#1: DESTINO
Era fim de tarde em Tokysoro. Os estudantes começavam a deixar a Academia Imperial de Tokysoro, uma das instituições mais prestigiadas do país. Vestindo impecáveis uniformes brancos com detalhes vermelhos, os alunos da elite seguiam para carros luxuosos que já os aguardavam do lado de fora. Empresários, políticos e outras figuras influentes conversavam elegantemente enquanto aguardavam seus filhos, transformando a saída da escola em uma verdadeira reunião da alta sociedade.
Entre eles caminhava Iukyro. Embora vestisse o mesmo uniforme, sua realidade era completamente diferente. Filho de uma família humilde, estudava na Academia graças a uma bolsa integral conquistada por seu excelente desempenho. Enquanto seus colegas partiam em veículos particulares, ele fazia o caminho de casa a pé, economizando cada donyoen que podia.
Além da diferença financeira, sua aparência também chamava atenção. Em uma cidade onde quase todos possuíam cabelos negros e olhos escuros, seus cabelos loiros e olhos azuis faziam muitos o enxergarem como um estrangeiro, alguém que, na visão de alguns, nunca deveria ter pertencido àquela escola. Foi durante esse trajeto que seu celular começou a tocar.
“Oi, pai.”
Pai: “Filho, quando você chega em casa? Sua mãe e eu queremos escolher seu presente de aniversário junto com você.”
Iukyro: “Eu senti uma dor de cabeça muito forte no último período. Vou passar na farmácia aqui da rua para comprar um remédio. Não devo demorar.”
Pai: “Tudo bem. Mas vem logo para casa. Se essa dor piorar, me liga na mesma hora.”
Iukyro: “Pode deixar. Acho que é só cansaço.”
A ligação terminou.
Iukyro massageou as têmporas. A dor parecia pulsar atrás dos olhos, como se algo pressionasse sua cabeça de dentro para fora. Sem dar muita importância, abriu a porta da farmácia.
TIN...
O sino preso à porta ecoou de maneira estranhamente longa. Diferente do lado de fora, o ambiente era silencioso. Alguns clientes mais velhos, vestidos com ternos caros, joias discretas e relógios de luxo, aguardavam pacientemente na fila ou observavam produtos pelos corredores. Pelo modo como conversavam, era evidente que pertenciam à mesma elite que cercava a Academia Imperial. As luzes brancas iluminavam perfeitamente as prateleiras, mas, por algum motivo, o lugar parecia mais escuro do que deveria.
O atendente ergueu os olhos assim que Iukyro entrou.
Atendente (gritando): "Ei! A noite está linda, não está?"
Alguns clientes mais velhos voltaram o rosto por um instante, incomodados com o tom da voz.
Iukyro: “Noite?”
Confuso, olhou pela vitrine. O céu agora estava completamente escuro. A lua já brilhava entre as nuvens, os postes iluminavam a rua e as vitrines dos estabelecimentos refletiam as luzes da cidade. Não havia mais nenhum vestígio do pôr do sol que ele vira poucos instantes antes. Ao voltar o olhar, encontrou o atendente sorrindo de um jeito difícil de interpretar.
Atendente (sorrindo): "Pois é... aproveite as promoções na área dos analgésicos."
Iukyro apenas assentiu, sem graça, e caminhhou até as prateleiras. Comparou os preços de alguns remédios até encontrar um dos mais baratos, justamente um que já havia usado antes. Pegou a caixa e seguiu para a fila do caixa.
De repente, uma risada familiar atravessou o ambiente.
Seu corpo inteiro gelou. Até a dor de cabeça pareceu desaparecer.
“Iukyro? Você aqui?”
Ele virou tão depressa que quase deixou a caixa do remédio escapar das mãos. Por sorte, conseguiu segurá-la antes que caísse no chão.
Iukyro (gaguejando): "N-Nanukota...! Eu... eu... ah... minha cabeça... tá doendo..."
Nanukota sorriu suavemente.
Nanukota: “Percebi.”
Ela deu um pequeno passo à frente e pousou a palma da mão sobre a testa dele. O gesto foi tão repentino que Iukyro arregalou os olhos, ficando completamente imóvel.
Nanukota: "Humm..."
Então inclinou levemente a cabeça, estreitando os olhos como se analisasse algo curioso.
Nanukota: "Estranho... não parece estar com febre.”
Iukyro abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. Seu cérebro parecia ter simplesmente parado de funcionar.
Foi então que alguns clientes mais velhos começaram a reclamar.
— Na nossa época, pelo menos esperavam chegar em casa.
— Você fala como se tivesse sido diferente...
Iukyro piscou algumas vezes, como se finalmente tivesse voltado à realidade.
“A-ah! Desculpa!”
Com o rosto completamente vermelho de vergonha, lançou um olhar tímido para Nanukota.
Iukyro: “Depois a gente conversa...”
Envergonhado, caminhou apressado em direção à fila. Quando chegou sua vez, colocou a caixa do remédio sobre o balcão e entregou o dinheiro ao atendente. Enquanto aguardava o troco, seus olhos pararam na mão dele. Havia uma tatuagem incomum... Um sorriso cartunesco. Sem olhos. Sem rosto. Apenas um sorriso.
Iukyro (pensando): “Que desenho bizarro...”
O atendente percebeu seu olhar e sorriu.
Atendente: “Gostou? Pode olhar mais de perto, se quiser.”
Ele aproximou lentamente a mão do rosto de Iukyro.
Iukyro (recuando): “Não... tá tranquilo.”
Por um instante, o atendente apenas o encarou. Depois voltou a contar o troco como se nada tivesse acontecido.
Atendente: “Aqui está seu remédio... e seu troco. Um donyoen e cinquenta.”
Iukyro pegou o remédio imediatamente e recolheu quase todas as moedas. Quando estendeu a mão para pegar a última, o atendente a prendeu entre os dedos.
O sorriso dele voltou. Desta vez, era mais largo.
Atendente: “Por que você parece tão nervoso, garoto?”
Por um breve instante, Iukyro tentou puxar a moeda, mas o atendente não a soltou de imediato. O coração dele acelerou.
Iukyro: “Eu...? N-não... é só...”
O atendente soltou a moeda. Iukyro a agarrou quase no mesmo instante.
Iukyro: “Tchau.”
O homem respondeu com uma gargalhada alta, chamando a atenção de alguns clientes, que olharam na direção do garoto.
Atendente: “Volte sempre!”
Sem dizer mais nada, Iukyro guardou o troco às pressas e deixou a farmácia. Assim que atravessou a porta, um arrepio percorreu sua espinha. Enquanto caminhava de volta para casa, a cena se repetia em sua mente. O sorriso do atendente, a moeda presa entre os dedos e a gargalhada ecoavam sem parar.
Iukyro (pensando): “Qual era o problema daquele cara? Eu senti um arrepio quando ele começou a rir...”
Ainda distraído com os próprios pensamentos, acabou esbarrando em um senhor que caminhava pela calçada.
“Ei! Presta atenção por onde anda, babaca!”
Assustado, Iukyro curvou-se repetidas vezes, mantendo os olhos fechados.
Iukyro: “Perdão! Mil perdões, senhor!”
O homem apenas resmungou algo incompreensível e seguiu seu caminho. Iukyro respirou fundo, tentando entender por que, de repente, tudo parecia tão estranho naquela noite. Quando finalmente abriu os olhos, percebeu que estava voltado para a direção oposta de onde seguia, como se tivesse girado o próprio corpo sem perceber. Bem à sua frente havia um beco.
Iukyro franziu a testa.
Tinha absoluta certeza de que aquele beco não existia quando passara por aquela rua poucos minutos antes. Olhou para um lado, depois para o outro, tentando encontrar alguma explicação lógica.
Iukyro (pensando): “Como eu não vi isso antes?”
Após alguns segundos, olhou para a cartela do remédio que ainda segurava nas mãos.
Iukyro (pensando): “Será que esse remédio está me causando algum efeito colateral?”
Movido pela curiosidade, aproximou-se da entrada do beco. No início, não havia nada além da escuridão. Então, um pequeno brilho surgiu ao longe, como se estivesse escondido no fim daquele corredor estreito. A cada passo que Iukyro dava, a luminosidade tornava-se mais intensa. Não era branca. Não era dourada. Era uma luz impossível de descrever, diferente de qualquer coisa que ele já tivesse visto.
Por um instante, toda a dor de cabeça desapareceu. Hipnotizado, continuou caminhando. Porém, quanto mais avançava, mais distante aquela luz parecia ficar. Era como se o beco se alongasse a cada passo, tornando impossível alcançar sua origem. Iukyro parou.
Iukyro (pensando): “Isso... não faz sentido...”
Foi então que uma sombra colossal deslizou lentamente diante daquela luminosidade. Como uma criatura devorando o próprio sol. Em um único instante, toda aquela luz maravilhosa foi engolida pelas trevas. A luz desapareceu por completo. As trevas tomaram conta do lugar. Não eram apenas as sombras da noite. Eram mais profundas. Mais pesadas. Até as estrelas haviam desaparecido do céu.
O silêncio se tornou absoluto. Então... Uma voz rompeu a escuridão.
”FINALMENTE!”
O ar tornou-se pesado, impregnado por uma maldade sufocante. Diante de Iukyro estava uma criatura grotesca. Suspensa no ar. Seu corpo estava envolto de fumaça, enquanto olhos abissais brilhavam com pura malevolência. Cada detalhe daquela figura tornava o horror ainda mais intenso. Seu sorriso parecia desafiar qualquer noção de sanidade.
Tomado pelo terror, Iukyro tentou correr. Seu corpo, porém, simplesmente não respondia. Era como se todo o seu ser tivesse sido tomado pelo medo.
Iukyro: “Isso... isso não pode ser real...”
Seu coração disparava descontroladamente.
Iukyro (voz trêmula): “Eu... eu preciso sair daqui...”
O demônio abriu ainda mais o sorriso.
“EU ME ALIMENTO DE TODAS AS RISADAS PECAMINOSAS DOS INJUSTOS. EU SOU EXIGOA!”
Sua voz parecia ecoar por todos os cantos do beco ao mesmo tempo.
“MINHA MISSÃO É EXTINGUIR O NOVO RECEPTÁCULO...”
A criatura alta inclinou a cabeça em um movimento lento e antinatural.
“VOCÊ... KIRISOMU.”
Iukyro: “Como... como sabe meu sobre—”
Antes que pudesse terminar a frase, o Demônio Exigoa desapareceu. No instante seguinte, surgiu diante dele. O primeiro soco atingiu seu abdômen. O segundo veio contra seu rosto. Depois outro. E outro. Cada golpe possuía uma força sobre-humana, drenando completamente suas energias. Sem qualquer chance de reagir, Iukyro foi lançado contra o chão gelado do beco.
Uma gargalhada sombria ecoou.
“AHAHAHA...”
O demônio deu um passo à frente.
"VOCÊ..." Sua voz transbordava desprezo. "AH... COMO EU ODEIO A SUA EXISTÊNCIA..."
Seu rosto deformou-se em um sorriso perturbador, semelhante ao de alguém que havia enlouquecido há muito tempo. Enquanto Iukyro respirava com extrema dificuldade.
“Ngh... ngh...”
De repente um trovão explodiu rompendo as trevas do beco, fazendo o ar vibrar como se o próprio céu estivesse prestes a desabar. O demônio abriu um sorriso perverso e, sem perder tempo, agarrou o corpo inconsciente de Iukyro pelo pescoço. Com uma força monstruosa, girou o corpo e o lançou para o alto. Iukyro rasgou os céus como um projétil, desaparecendo entre as espessas nuvens.
No instante seguinte, uma rajada de vento atravessou o beco em velocidade absurda. Antes que o demônio pudesse sequer mover os olhos, uma figura surgiu acima dele como um borrão. Seu corpo girou no ar e, no instante seguinte, o calcanhar despencou como a lâmina de uma guilhotina, esmagando o topo da cabeça da criatura. O impacto foi tão brutal que o demônio foi cravado contra o chão, fazendo a calçada explodir em uma cratera. A onda de choque percorreu o beco, estilhaçando o concreto e levantando uma espessa cortina de poeira.
O silêncio durou apenas um instante. Em meio aos escombros, a poeira começou a se dissipar, revelando o corpo da criatura se contorcendo lentamente. Um rosnado grave e furioso ecoou pelo beco enquanto ela voltava a se erguer.
“COMO OUSA INTERFERIR?!”
Faíscas elétricas percorriam o corpo da garota, envolvendo-a em uma aura brilhante que contrastava com a escuridão sufocante do beco. Sem sequer olhar para o demônio, ela ergueu os olhos para o céu e avistou, ao longe, o corpo de Iukyro despencando das nuvens.
Seizuky (mastigando chiclete): “Sentiu minha falta, Exigoa? Mas hoje não tenho tempo para brincar.”
Seizuky flexionou as pernas e seu corpo começou a girar em altíssima velocidade. O vento ao seu redor se condensou em um redemoinho enquanto ela concentrava força suficiente para alcançar Iukyro antes de chegar ao chão.
No instante em que seus pés deixaram o chão, uma mão monstruosa agarrou seu tornozelo.
BOOM!!
Exigoa a arremessou violentamente contra a calçada. Rachaduras se espalharam pelo chão do beco enquanto o corpo da garota permanecia parcialmente enterrado entre os escombros.
Antes que o demônio pudesse avançar, seu corpo inteiro começou a tremer. As fumaças negras que o formavam começaram a se dissipar de maneira descontrolada. Ele caiu de joelhos, levando as mãos ao próprio rosto. Suas garras rasgavam a própria forma enquanto urrava, como se uma força invisível o estivesse consumindo de dentro para fora.
“EU VOU MATÁ-LO AQUI TAMBÉM... É O DESTINO DELE.”
Sua expressão psicótica se contorceu em um misto de ódio e agonia. A própria aura demoníaca oscilava de forma instável enquanto ele pronunciava palavras em uma língua ancestral, cada sílaba fazendo o ar vibrar.
“HUMANUS, BREVIS COGNITHRAM ABYSSARA VYTHROS PROFUNDIS.”
Seizuky levantou-se lentamente, retirando a poeira da roupa. Ainda mastigando o chiclete, encarou o demônio sem demonstrar qualquer preocupação.
Seizuky: “Parece que o seu tempo acabou.”
Um portal de trevas se abriu atrás de Exigoa. Sua forma começou a ser puxada para dentro à força, como se uma corrente invisível o arrastasse de volta ao abismo. Mesmo resistindo e fincando as garras no chão, ele desapareceu por completo, enquanto o portal se fechava em um único lampejo sombrio.
Seizuky ergueu o olhar novamente. Iukyro despencava entre as nuvens em queda livre. Sem hesitar, ela flexionou as pernas para impulsionar o seu corpo novamente em sua direção.
Então, um único fio branco, escondido entre seus cabelos, começou a vibrar, emitindo um som semelhante ao toque de um telefone. Ela respirou fundo e enrolou o fio em torno da orelha.
???: “Seizuky... pare por aí.”
Os olhos da garota se arregalaram.
Seizuky: “Eu preciso fazer alguma coisa...”
Houve alguns segundos de silêncio.
???: “Você sabe que não é ele.”
Ela permaneceu imóvel.
???: “Quanto mais insistir em enxergá-lo nele... mais vai se afastar da sua missão.”
Os dedos de Seizuky se fecharam lentamente.
Seizuky: “...Mesmo assim...”
A voz do outro lado tornou-se firme.
???: “Retorne à base. Esta é uma ordem.”
Ela abaixou a cabeça por um instante. Depois soltou um longo suspiro, voltando a mastigar o chiclete.
POP! (A bolha de chiclete estourou.)
Pela última vez, ela ergueu os olhos para o céu vazio.
“Eu espero que desta vez... você consiga...”
No instante seguinte, seu corpo desapareceu junto ao vento. Um instante depois, uma única lágrima encontrou o chão destruído, como a única prova de que ela realmente estivera ali.
