#1: CASTAS DIGITAIS
Meu nome é Ivachi Yann. Desde pequeno, eu carregava um sonho comigo: me tornar um grande influenciador. Eu acreditava que talento, esforço e criatividade eram suficientes. Porém hoje, influenciar não é mais uma questão de mérito pessoal, mas de submissão a um sistema… um sistema de castas.
No topo visível dessa hierarquia estava a Casta S:
A elite. Poder absoluto, acordos milionários e visibilidade máxima. Ditam tendências virais e nunca caem de verdade. O sistema os recicla, reapresentando-os ao público como versões atualizadas de si mesmos, até que deixem de ser úteis.
Logo abaixo vinha a Casta A:
Grandes nomes. Famosos com público fiel, presença constante e rostos sempre estampados nas telas. Não possuíam o mesmo poder da elite, mas ainda desfrutavam de influência suficiente para se manter relevantes e seguros.
Em seguida surgia a Casta B:
As subcelebridades. Cresciam em picos instáveis, sustentadas por polêmicas pontuais que inflamavam o engajamento. Viviam à mercê do próximo escândalo, sabendo que a queda podia ser tão rápida quanto a ascensão.
Na base de tudo estava a Casta C:
Pequenos. Autênticos… quase invisíveis. Vozes presas a um alcance limitado, lutando diariamente contra algoritmos e a indiferença do sistema.
Ainda assim, havia rumores de que a hierarquia não se limitava a quatro níveis. Segundo alguns, existia uma casta oculta acima da própria Casta S, tão poderosa que poucos ousavam mencioná-la, como se temessem causar um alvoroço público irreversível. As fontes que falavam sobre isso afirmavam que esses chamados “Príncipes Digitais” possuíam contas em todos os lugares e seguidores espalhados por cada canto do mundo.
Mesmo que bilhões de pessoas seguissem um desses príncipes, eles jamais revelavam pertencer a essa casta oculta. Preferiam se apresentar como membros da Casta S, mesmo quando tudo apontava para outra conclusão. O silêncio, ao que parecia, fazia parte do poder.
Já eu, segundo a Associação Global Digital, não tinha pontuação suficiente para ser classificado em nenhuma das castas existentes. Ou seja, eu era apenas um micro influenciador que, de bônus, ainda vinha de uma família pobre.
Enquanto isso, os influenciadores que eu seguia já tinham iluminação profissional aos dez anos, equipamento de ponta para edição aos doze e o principal, uma internet veloz. Parecia que eles eram predestinados a chegar ao topo; já eu, a ficar na lama.
Mesmo com tudo ao meu redor prejudicando meu crescimento, eu tentei de tudo sem medo. Coloquei esforço em cada conteúdo. Insisti. Mas a péssima qualidade da imagem nos vídeos sempre arruinava todo o meu trabalho… exceto o áudio.
Mas quer saber? Não vou desistir do meu sonho, e se o destino não colaborar, eu vou moldá-lo a meu favor.
“Mocinho!”
Ivachi (abrindo os olhos): “Mãe?!”
Mãe: “O senhor tem escola hoje e já está atrasado.”
Ivachi fez uma expressão cansada, sentando-se na cama e coçando os olhos.
Sua mãe foi saindo do quarto, porém esbarrou no celular que estava carregando na tomada, fazendo com que ele desse um berro.
“Não!!!”
Mãe (assustada): “O que foi filho?”
Ele fez uma expressão de dor, mordendo os lábios e olhando para o celular, que tinha desligado quando ela esbarrou.
Ivachi: “Mãe, você sabe que meu celular de gravação é viciado. Se tu tocar na tomada, ele para de funcionar... Perdi todo o progresso da renderização do arquivo...”
Ela fez um olhar gracioso que sempre o desarmava.
“Não foi minha intenção, meu príncipe.”
Ele suspirou.
“Não tem problema, mãe…”
Levantou-se finalmente para vestir seu uniforme de aula.
“Agora vou ter que começar do zero de novo.”
Escola Kutugakoh – Período da Tarde
“O que o senhor está fazendo carregando seu celular e mexendo durante a aula, senhor Yann?”
Ivachi congelou. O rosto esquentou, os olhos se estreitaram… e, por um segundo, ele considerou seriamente fingir que não tinha ouvido.
Professora: “Eu sei que o senhor me ouviu. Largue esse celular e preste atenção na aula.”
Ivachi (murmurando): “…Desculpa.”
A professora o encarou por alguns segundos a mais, cruzando os braços.
Professora: “Espero que tenha entendido, senhor Yann.”
Ivachi assentiu com a cabeça. Uma vez. Seco. A professora voltou à explicação.
Professora (com o livro em mãos): “Antes da televisão, as pessoas eram envolvidas apenas pelo som dos locutores de rádio, e não por…”
“É ISSO!”
Ivachi estalou os dedos, como se tivesse feito uma grande descoberta.
A fala ecoou pela sala, e todos se viraram para ele, inclusive a professora, fazendo-a interromper a explicação.
Antes que a professora chamasse sua atenção, Akarih, uma garota de cabelos vermelhos presos em rabo de cavalo e olhos carmesim afiados, lançou um olhar irritado na direção de Ivachi.
Akarih: “Professora, me dá nojo ver uma casta baixa imprestável, atrapalhando tanto os meus estudos.”
Ivachi virou-se lentamente na direção dela. Fixou seus olhos verdes com uma expressão fria, completamente indiferente, como se estivesse observando algo irrelevante demais para merecer qualquer reação emocional.
Sem dizer nada, ele virou o rosto de volta para frente, cochichando consigo mesmo, absorto em seus próprios pensamentos.
Akarih travou. O rosto dela esquentou quase instantaneamente. As bochechas ganharam um tom rosado, e os olhos se desviaram para o lado. Ela inflou levemente as bochechas, fechando os olhos por um instante, num biquinho contido e involuntariamente fofo, uma mistura de frustração e vergonha.
Akarih (pensando): “Idiota… por que ele tinha que olhar assim…”
Professora: “Senhor Yann e senhorita Hae, não quero discussões entre os dois. Todos prestando atenção em mim! Entenderam?!”
Coro de Estudantes: “Sim, senhora Makimoh!”
Casa – Período da Noite
Ivachi chegou no meio do jantar da família. Sua mãe e sua irmã estavam sentadas à mesa; Ivachi abriu a porta, molhado pela chuva.
A irmãzinha de Ivachi, balançava as pernas na cadeira enquanto brincava com o arroz no prato. A mãe observava tudo em silêncio.
“Então, filho… precisamos conversar.”
Ele sacudiu os tênis encharcados da chuva e os pôs ao lado da porta.
“Eu vi que você criou outro canal, certo?”
Ivachi tirou a camisa molhada e a pôs sobre o ombro.
“Sim, mãe. Por quê?”
A mãe segurou o talher com mais força.
“Você quer virar famoso? Como seu pai, não é?”
Ivachi: “Não como ele…”
Mãe: “Esse sistema prende as pessoas para dentro dele, filho..."
Ele olhou assustado para a mãe, que parecia traumatizada, encarando a mesa à sua frente.
“Mãe, eu não vou ser igual a ele. Eu… eu não vou deixar a senhora nem a Yumi.”
Mãe: “Só… toma cuida..."
Ivachi a interrompeu e deu um abraço carinhoso na mãe, seguido de um beijo na testa da irmã. A irmãzinha olhou de um para o outro, confusa.
Yumi: “Hum?”
A mãe parou, surpresa, e foi se acalmando.
Ivachi (sorrindo): “Não estou com fome, porque tive uma ideia muito boa na escola para meus vídeos, mãe.”
Ele foi se afastando da mesa em direção ao quarto e disse em voz alta, antes de desaparecer pelas escadas da casa:
“Vou dar uma vida melhor para vocês duas com meus vídeos!”
A mãe esboçou um leve sorriso de felicidade ao olhar na direção das escadas.
“Ele realmente parece com o pai...”
Ivachi jogou a mochila no chão e sentou-se em sua velha cadeira de escritório. Ficou encarando o teto enquanto girava a cadeira, lentamente, em movimentos repetidos.
“Sistema, né…”
Ele virou o rosto lentamente e encarou a mochila onde guardava seu celular de bateria viciada. Lembrou da ideia que teve na aula. Do áudio perfeito que o celular produzia. Da narração que tinha gravado quase sem pensar no dia anterior. O coração acelerou um pouco. Ele se sentou.
“Pode não dar certo, mas…”
Ele plugou o carregador na tomada, ligou ao celular e apertou o botão para despertar o aparelho.
O símbolo da Asang apareceu brilhoso na tela. Ele esperou alguns segundos para aparecer a tela de bloqueio, abriu a página inicial, rolou a tela do celular até abrir o arquivo de áudio. A voz dele ecoou pelo quarto: clara, firme, envolvente. Sem imagem. Sem rosto. Só conteúdo. Um mangá que ele gostava. Uma análise simples, mas feita com paixão. Ivachi engoliu em seco. Sem pensar demais, ele abriu o aplicativo. Criou um vídeo novo. Subiu apenas o áudio, com várias imagens estáticas simples que achou na internet sobre o tema. Nada de edição pesada, porém algo bom o suficiente.
Ele ficou alguns segundos olhando para a tela antes de publicar.
“Seja o que tiver que ser.”
Publicou.
Deitou na cama. O cansaço veio rápido demais. O corpo desligou antes que a mente pudesse sabotar a ideia.
A mãe batia na porta, gritando.
“Meu filho, o café está na mesa. Precisa comer alguma coisa antes de estudar.”
Ivachi abriu os olhos lentamente, pegou o celular por reflexo, perto da cama. A tela acendeu.
Ele piscou. Piscou de novo.
“…Hã?!!!!!” (o coração acelerou)
A mãe começou a bater com mais força na porta do quarto.
“Filho, você está bem aí dentro?!”
Notificações.
Curtidas.
Comentários.
Visualizações subindo.
Dezenas. Centenas. Milhares.
Ele se sentou na cama num pulo.
“Não… não pode ser…”
Atualizou a página. Os números continuaram subindo. Comentários elogiando a narração. Pessoas pedindo mais. Gente perguntando quando sairia o próximo e quem era ele.
“Funcionou...”
Um sorriso incrédulo se formou lentamente em seu rosto. Ivachi destrancou a porta e deu um beijo rápido na bochecha da mãe.
Ela piscou, confusa.
“Filho… você tá bem?”
Ele saiu pelo corredor, se remexendo de tanta felicidade.
"Tô, mãe. Tô muito bem!"
E então gritou, a plenos pulmões, ecoando pela casa inteira:
"DEU CERTO!!!"

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