#3: PESADELO
“Por que amo tanto ela?”
Psicóloga (curiosa): “Espero que você responda essa pergunta para mim, Bachituh.”
Dentro do prédio dedicado à empresa de Bachituh, existia uma sala onde certos funcionários que apresentavam problemas de produtividade eram designados, caso quisessem continuar trabalhando. A sala era fria devido ao ar-condicionado, quieta por estar isolada da área dos trabalhadores e aconchegante por ter um sofá de couro preto no centro e uma poltrona ao lado, onde a psicóloga fazia anotações.
Bachituh virou o pescoço subitamente na direção da profissional, de maneira contida, e soltou um comentário.
“Com todo respeito, mas você não é a profissional que vai me ajudar a me entender aqui?”
Psicóloga (educada): “Meu amor, não posso decifrar o que sente a não ser que dê forma ao que pensa. Normalmente, voltar às lembranças do passado nos dá um panorama melhor de seu estado.”
Ela mudou a postura, cruzou as pernas, fazendo-o desviar o olhar e voltar o pescoço novamente para a posição correta, de acordo com o corpo no sofá. Olhou para cima enquanto as mãos repousavam sobre o peito. Ele estava deitado, porém rígido demais para relaxar. Continuou seu monólogo.
“Não sei quando exatamente surgiu esse sentimento. Eu já estudava com ela há dois anos, ela namorava na época, então eu quis ficar distante, mesmo sendo amigo dela.”
Ele piscou. O dedão esquerdo roçou no direito enquanto permanecia deitado.
Psicóloga (escrevendo algo): “Pode continuar.”
“Durante nosso último ano juntos na escola, eu iria encontrá-la na formatura, porém...”
Subitamente, um relógio que marcava o tempo de sessão despertou com um som repetitivo e estridente, fazendo o coração de Bachituh disparar por um momento.
Psicóloga (envergonhada): “Perdão, lindinho. Eu ainda não ajustei esse despertador de sessões, infelizmente já se passaram os 40 minutos que tínhamos juntos.”
Bachituh se levantou, e a psicóloga também.
Bachituh: “É... tudo bem, senhora. Ainda terei algumas sessões obrigatórias devido à indicação do meu chefe.”
Ela deu uma leve risada.
Psicóloga: “Não sou tão velha assim para me chamar de senhora, ok?”
Ela se aproximou de maneira sensual, estendeu a mão para cumprimentá-lo, e ele foi de encontro para apertar a mão dela também.
Bachituh (com o rosto corado): “Ah... ok.”
Psicóloga (com sorriso leve): “Queria saber se posso te chamar de Bachi?”
As palavras dela se misturaram com o passado. O sorriso gracioso se alinhou ao sorriso de Uneyova; era como se fossem a mesma pessoa. Bachituh arregalou os olhos subitamente, como se tivesse visto uma assombração, e disse:
“Não. Me chame de Bachituh mesmo, estou atrasado, preciso voltar ao meu serviço.”
Ele soltou a mão dela, deslizando os dedos até sobrar apenas ar. Ela deu um sorriso de canto e sussurrou:
“Serviço, hein?”
Bachituh saiu pela porta e foi em direção ao corredor. Olhou ao redor enquanto seus passos quebravam o silêncio; havia algo estranho que ele não conseguia processar mentalmente, eram detalhes na física do seu andar que pareciam diferentes. Ele aproximou-se de alguém que limpava o chão e disse, tocando em seu ombro:
“Onde está todo mundo, consegue me informar?”
A mulher olhou para ele com o rosto visível, mas ao mesmo tempo borrado, e falou:
Ele fez um olhar de horror.
Bachituh: "Não pode ser que eu...”
Ele largou a mulher no corredor, que não parava de rir de maneira inumana, e começou a correr. Viu uma porta à sua direita e entrou, fechando-a com força. Quando olhou para frente, viu uma sala de aula vazia e uma garota familiar sentada em uma das mesas, murmurando como se estivesse apenas passando o tempo naquele lugar desabitado.
Bachituh (desconfiado): “Uneyova?”
Aparentemente era ela mesma: cabelo roxo, olhos roxos, uniforme escolar da época da escola. Mas havia algo errado. Ela não parava de murmurar, como um coro:
“Hum. Humm. Hum!”
Ele se aproximou e começou a sacudi-la, mas o olhar fixo, quase morto, não mudava de lugar. Ela continuava a murmurar, agora elevando o tom:
Ele se abaixou, se pôs no nível dos olhos dela, e finalmente ela parou.
Bachituh: “O que está fazendo aqui sozinha?”
Ele perdeu as forças das pernas. Seu corpo começou a ficar rígido como pedra. Uneyova começou a se desfigurar à sua frente. A pele apodreceu. Os ossos rangeram. O rosto se retorceu, como se algo dentro dela estivesse saindo. E então, era a entidade. A mesma que ele já conhecia.
Ele começou a gritar sem som. O som saía, mas nada era ouvido. Gritar naquele momento gerava um paradoxo que o fazia se incomodar em resistir.
“Bachituh!!!”
Ele abriu os olhos no consultório, com a psicóloga sobre ele, olhando bem perto de seu rosto com um olhar de preocupação.
Bachituh (assustado): “Oi?!”
A psicóloga se recompôs e retornou à sua poltrona.
Psicóloga: “Parece que o senhor adormeceu no conforto do sofá quando deitou. Se desejar, podemos fazer a consulta com o senhor sentado.”
Bachituh (esfregando os olhos): “Sim. Sim. Ultimamente ando sem dormir muito em casa.”
Ele arrastou o corpo no sofá e se sentou.
Psicóloga: “Entendo, sim. Talvez isso esteja associado a um padrão causado por algum trauma.”
Ele engoliu em seco.
Bachituh: “Talvez a senhora esteja cer...”
Psicóloga: “Senhorita, por favor.”
Ele tentou falar novamente, travando antes mesmo de o som se formar. Mesmo sentado, seu rosto congelou. A entidade sentou-se em seu colo e abriu uma boca enorme.
Bachituh: “AHHHHHH!!!!”
O ventilador de teto girava acima. O sofá de couro fez um som característico com o movimento dele. Bachituh deu um salto, sentando-se abruptamente. Não havia ninguém na sala. Então, a psicóloga entrou pela porta com um copo de café.
Psicóloga: “Oi, desculpa a demora. Tu estava com um olhar cansado, então trouxe um café para te manter desperto na sessão. Está tudo bem?”
Ele ficou de pé, cambaleou até ela, quase tropeçando. Suas mãos subiram até o rosto dela, trêmulas, desesperadas. Tocou a pele. Quente. Macia. Real. Passou os dedos pelos cabelos. Sentiu os fios soltos entre os dedos.
Bachituh (voz rachada): “Você é real... né? Por favor, me diz que você é real.”
Psicóloga (com o rosto corado): “Sim, eu sou...”
Ele deu um pulo para trás e tentou disfarçar.
Bachituh: “Perdão, é que eu só queria confirmar algo, sabe?”
Psicóloga (se recompondo): “Não... Não sei, senhor Bachituh.”
Ele deu um suspiro e abaixou os ombros.
Bachituh: “Perdão. Não vai acontecer novamente, prometo.”
Psicóloga: “Pegue seu café e vamos começar sua sessão, ok?”
Bachituh: “Ok.”
Ele estendeu a mão direita e pegou o copo de café das mãos dela.
Psicóloga: “A propósito, meu nome é Sayoh.”

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