Pular para o conteúdo principal

PARALISIA DO SONO #1 |16+|


#1: LEMBRANÇAS

A água quente caía sobre a cabeça de Bachituh como se quisesse arrancar alguma coisa dele. O vapor subia, grudava nas paredes e no teto do banheiro, transformando o boxe num aquário branco. O espelho, do lado de fora, já tinha virado uma névoa opaca. Bachituh ficou parado, o ombro encostado no azulejo, a testa inclinada para frente. O barulho do chuveiro era constante. Quando ele fechou os olhos, veio a mesma coisa de sempre: um corredor comprido, cheiro de piso encerado, vozes misturadas, risadas jovens. E, no meio desse cenário, um nome. Um rosto. Uma presença que se recusava a virar passado.

Uneyova

Fazia muito tempo que ele não falava esse nome em voz alta. Tinha medo de que o som tornasse tudo mais real, mesmo que fosse apenas em sua mente. A memória dela vinha em flashes. Às vezes era o jeito dela prender o cabelo. Às vezes era o brilho nos olhos quando ele dizia algo bobo. Às vezes era apenas a sensação de que, perto dela, até respirar era prazeroso.

Bachituh apoiou a mão no azulejo e ficou olhando para baixo, onde a água descia em círculos. A mente dele girava daquele mesmo jeito, em loop infinito. Dava voltas, voltas, voltas, e nada mudava. O ciclo se repetia, a mesma sensação de vazio o tomava novamente, sem que nada melhorasse.

Ele respirou fundo e desligou a água. O silêncio que veio depois foi seco. De repente, o banheiro ficou grande demais. Ele saiu do boxe com a toalha nos ombros, sem pressa. Passou pelo espelho embaçado, olhou rapidamente e se assustou por um momento; pensou que havia visto o sorriso dela, mas talvez fosse apenas sua mente enganando sua percepção.

Ele trocou de roupas de forma mecânica e se aproximou da sala. A cozinha estava à sua frente: pequena, organizada, tudo no lugar. Tudo calmo.

Bachituh abriu a geladeira. A luz interna iluminou prateleiras quase vazias: um pote de molho, um resto de alguma coisa dentro de um recipiente transparente, duas garrafas de água e um pacote esquecido no canto. As embalagens pareciam levemente borradas. Ele piscou algumas vezes, tentando focar, até que desistiu e pensou:

“Talvez eu esteja precisando de óculos.”

Ele fechou a geladeira. Pegou uma panela pequena, encheu-a de água e acendeu o fogo. Tirou do armário um pacote simples: macarrão, tempero, nada demais. Não era um jantar nutritivo, mas funcional. Enquanto a água esquentava, ele ficou parado no meio da cozinha, ouvindo o som do gás e sentindo o cheiro da própria solidão.

A água ferveu.

Ele colocou o macarrão, mexeu sem vontade e esperou o tempo passar, como esperava todos os outros tempos. Olhava, mas não estava presente.

Quando ficou pronto, serviu numa tigela e levou para a mesa.

Os movimentos faziam eco pela casa. Ele assoprava, levantava, mastigava, engolia e repetia. O gosto entrava e saía sem deixar marca.

Ele terminou metade da refeição sem nem perceber. Os olhos ficaram presos na tigela, que parecia uma espiral entrelaçada.

Bachituh (pensando): “Como foi que cheguei aqui?”

Ele respirou, engoliu o resto sem sentir, lavou a tigela e deixou na pia. Apagou a luz da cozinha. Voltou para o quarto.

O quarto era simples. Cama, guarda-roupa, um pequeno abajur. O tipo de quarto de alguém que tinha acabado de sair da escola, conseguido o primeiro emprego, começado a vida adulta sem nem perceber. Ele não era mais adolescente. Mas a vida não parecia ter crescido junto com ele.

Bachituh se jogou na cama e ficou olhando para o teto. O teto era branco, liso, sem rachaduras. Isso o irritava. Ele queria uma rachadura. Qualquer coisa que provasse que algo também falhava, além dele próprio.

E de novo subitamente como sempre, a imagem veio. O pátio da escola. Uneyova sentada numa mureta baixa, as pernas balançando, sorriso fácil, uniforme amarrotado, cabelo preso de qualquer jeito. Como se tivesse acordado tarde, como se tivesse corrido, como se a vida fosse um lugar onde ainda existia pressa por coisas boas.

Uneyova: “Você sumiu. Por que me deixou sozinha esse tempo todo?”

Era sempre assim. A memória dela falava com ele como se fosse presente. Como se ainda fosse possível. Bachituh virou o rosto para o travesseiro e fechou os olhos com força, tentando expulsar aquilo. Mas era inútil. Ele se viu no corredor, jovem demais, segurando livros, olhando para ela de longe. Viu a si mesmo esperando o momento certo, o dia certo, a frase certa para dizer “eu te amo”. E viu também como o tempo era cruel com quem adia. Ele nunca disse. Sempre achou que ainda teria tempo.

Na memória, Uneyova virou o rosto para ele, como se soubesse o que ele estava pensando.

Bachituh (desconfortável): "Eu não posso mais te ver.”

Na lembrança, ela pôs a mão na boca e riu baixo, de maneira graciosa.

Ele voltou ao presente, piscou os olhos rapidamente, como se quisesse parar de viver aquilo novamente; porém, os flashes não paravam.

Agora eles caminhavam lado a lado perto do portão, uma tarde qualquer, luz amarela atravessando árvores. Uneyova falava alguma coisa boba, ele ria. O mundo parecia fácil. A lembrança mudou e a seguinte era pior.

Ela se afastando. Acenando. Ele parado. O vazio depois...


“Nos vemos amanhã na formatura, certo, Bachituh?”


Bachituh abriu os olhos com um susto, como se tivesse encostado em um ferro quente. Ele se sentou na cama, esfregou o rosto com as mãos, respirando rápido. A vida dele tinha virado isso: uma sequência de cenas interrompidas. Um filme que travava sempre no mesmo ponto.

Ele pegou o celular e olhou para a tela escura. Parecia que havia descarregado, só que ele não se lembrava de tê-lo usado.


Ele largou o celular no criado-mudo, apagou o abajur e se deitou. O colchão recebeu o peso dele. O quarto ficou escuro, mas não totalmente. A luz da rua entrava pelas frestas da janela, desenhando linhas fracas na parede. Ele fechou os olhos. Sentiu o corpo ceder. A mente escorregou. Por um segundo, achou que ia conseguir. Mas então…

Um estalo.

O ar mudou. Bachituh abriu os olhos. O quarto estava igual: o mesmo teto branco. Só que havia alguma coisa errada. Ele tentou virar a cabeça. Nada. O corpo dele estava preso ao próprio peso. A respiração se tornou curta e irregular.

Ele piscou. Uma vez. Duas. O coração começou a bater em pânico contra as costelas.

Bachituh (pensando): "Calma… calma. É só—”

Mas a palavra não veio. A garganta não respondia. A boca não abria.

E foi aí que ele entendeu uma coisa apavorante: ele não tinha acordado totalmente.

Ele começou a ouvir murmúrios junto a uma pressão forte nos ouvidos. Alguém se aproximava, porém ele não podia se mover; só conseguia ver uma sombra que invadia o espaço, até que finalmente escutou uma voz feminina dizendo:

“VOU TE FAZER ESQUECER DELA.”

Comentários

Postar um comentário

🔥 POPULAR 🔥

INFLUENCER DIGITAL #1 |14+|